A Justiça que custa uma fortuna e solta o atirador da chacina
Há um homem de 51 anos frequentando as salas de cinema do Shopping Barra, em Salvador. O nome dele é Mateus da Costa Meira. Em 1999, ele entrou num cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, com uma submetralhadora, e abriu fogo contra a plateia. Matou três pessoas, feriu nove e foi condenado inicialmente a 120 anos de prisão.
Hoje anda solto. E escolheu como lazer exatamente o tipo de lugar onde cometeu o massacre.
Antes do caso, um número. O Judiciário brasileiro consumiu R$ 181,5 bilhões em 2024, o equivalente a 1,55% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. A média internacional é de 0,37%. O brasileiro paga mais de quatro vezes a média mundial, e só um país no planeta gasta mais em proporção da economia: El Salvador. Guardem esse nome.
Pois é essa Justiça, uma das mais caras do mundo, que devolveu Mateus às ruas.
O que os autos revelam
Reportagem de Ullisses Campbell, no O Globo, escavou o processo de execução penal. Transferido para a Bahia em 2004, Mateus tentou matar o companheiro de cela com golpes de tesoura na cabeça um ano depois. Julgado de novo, foi declarado inimputável e passou a cumprir medida de segurança num Hospital de Custódia. Em 2024, a Justiça baiana o desinternou.
O Ministério Público foi contra: não havia perícia comprovando o fim da periculosidade, nem estudo social, nem plano de riscos. A junta psiquiátrica que o avaliou concluiu que ele apresentava esquizofrenia paranoide, traços de psicopatia e, nas palavras dos laudos, elevado risco de comportamento violento. Recomendou mantê-lo afastado do convívio social.
E quando achávamos que já era grave, descobrimos que é pior. Ainda preso, Mateus mantinha uma lista manuscrita de pessoas que pretendia matar: os sete jurados que o condenaram, advogados, jornalistas, médicos. A lista está nos autos. Foi lida por quem decidiu soltá-lo.
Os próprios pais, de 87 e 84 anos, haviam dito à Justiça que não tinham como recebê-lo: o filho já agredira a mãe, perseguira a irmã com uma faca e quebrara três costelas do pai com um soco. Só cederam quando o Estado desativou o Hospital de Custódia e não sobrou lugar para onde mandá-lo. E o acompanhamento prometido na soltura? Os autos não registram uma única visita, entrevista ou perícia desde então. Ninguém sabe sequer se ele toma a medicação.
A conta não fecha
O contribuinte sustenta um dos Judiciários mais caros do planeta e recebe em troca um sistema incapaz do básico: manter separado da sociedade quem os peritos do próprio Estado classificaram como perigo à vida alheia. O Ministério Público disse não. Os psiquiatras disseram não. Os pais disseram não. A lista de futuras vítimas estava nos autos. E a Justiça disse sim.
Nos Estados Unidos, onde moro, um atirador em massa enfrenta a pena de morte ou a perpétua, e mesmo o réu insano fica confinado enquanto durar sua periculosidade. Na prática, para sempre. E El Salvador, o único país que gasta mais que o Brasil com sua Justiça? É o país de Bukele, que transformou a nação mais violenta do hemisfério numa das mais seguras. Lá, o gasto comprou resultado. No Brasil, compra salário, penduricalho e desinternação de assassino em massa.
É a bandidolatria como política de Estado. O brasileiro paga pela Justiça mais cara do seu bolso e recebe a mais invertida do planeta: implacável com o cidadão comum que resolve protestar contra o sistema, generosa com quem já matou e avisou, por escrito, que pretende matar de novo. Se um dia essa lista sair do papel, ninguém poderá dizer que não sabia. Estava tudo nos autos. Assinado, carimbado e ignorado.
