Militância de redação em estado puro: a Folha condena o "betinha" e absolve a "femosfera"
No mesmo dia, 13 de julho de 2026, a Folha publicou duas reportagens sobre o mesmo fenômeno: a divisão da vida amorosa em planilhas de dominação, hierarquias de valor e desprezo mútuo entre os sexos. Uma delas é tratada como emergência sanitária. A outra, como despertar. O leitor que abre as duas lado a lado não vê jornalismo. Vê uma redação decidindo, antes de apurar, qual dos dois ressentimentos merece condenação e qual merece cobertura simpática.
A primeira reportagem trata da "machosfera". O tom é de alarme. Termos como "betinha" e "sigma" são apresentados como sementes de ódio que se infiltram nas escolas, professores organizam rodas de conversa para desmontar a "masculinidade violenta", psicólogas da Safernet explicam que a piada é o cavalo de Troia da naturalização. A palavra "misógino" aparece no título. O verbo dominante é "combater". Nenhuma fonte é ouvida para relativizar, contextualizar ou compreender o menino de doze anos que repete um meme sem saber o que ele significa. Ele não é confuso. Ele é um caso a ser tratado.
A segunda reportagem trata da "femosfera", o espelho feminino exato do mesmo fenômeno. Mulheres que dividem os homens em "alto valor" e "baixo valor", que exigem que ele pague a conta como pedágio de entrada, que pregam nunca dar segunda chance e avaliar o parceiro "como se fosse um ativo de risco". É a mesma contabilidade fria, a mesma desumanização do outro sexo, a mesma hierarquia bioessencialista que a primeira matéria denuncia. E como a Folha trata isso? Com curiosidade antropológica. O texto oscila entre o encanto e a absolvição: "podem causar repulsa, mas também podem fazer você rir às gargalhadas". As regras de descarte imediato viram, no fim, "colete à prova de balas emocional".
Repare no mecanismo, porque ele é o ponto. Nas duas matérias, a mesma lógica é descrita: os sexos são fundamentalmente distintos, a guerra entre eles é permanente, o outro lado é um risco a ser filtrado. Quando o sujeito é o homem, isso se chama ódio e exige intervenção pedagógica. Quando o sujeito é a mulher, isso se chama empoderamento e merece um guia de sobrevivência. A Folha nem sequer disfarça. A própria reportagem sobre a femosfera cita, repetidas vezes, a pesquisadora Jilly Kay, que cunhou o termo. E o que Kay diz? Que a femosfera é uma "reação reacionária", que reproduz "algumas das táticas e da linguagem" da machosfera, que "desumaniza os homens da mesma forma". A fonte da própria matéria afirma que o fenômeno é reacionário. A redação decide que é confuso, mas simpático.
O truque para sustentar a assimetria é sempre o mesmo: a hierarquia de vítimas. A machosfera é violência real, endêmica, biológica; a femosfera é resposta compreensível a um mundo injusto. Note que essa não é a conclusão da apuração. É a premissa. É a moral gramsciana aplicada ao jornalismo, aquela em que o que importa não é o que se faz, mas a que categoria pertence quem faz. Um menino chama outro de "beta" e a Folha convoca a Safernet. Uma influenciadora chama o mesmo homem de "baixo valor" e a Folha ri junto. O insulto é idêntico, o alvo é o mesmo. A absolvição depende exclusivamente de quem promove o ataque.
E aqui está o que a Folha não enxerga, porque a militância a cega justamente para a relação de causa e efeito. A segunda matéria não é apenas o espelho inofensivo da primeira. É a sua origem. O que a reportagem simpática celebra como despertar, o homem tratado desde o berço como abusador em potencial, o menino que precisa ser "convocado a refletir" sobre a culpa de existir, a masculinidade apresentada como patologia a ser desmontada e nunca como virtude a ser formada, é exatamente o combustível da misogínia que a primeira matéria pretende combater. Diga ao menino, por décadas, que ele é perigoso por natureza, que sua atração é assédio, que sua iniciativa é abuso, que seu sexo é o problema, e não se surpreenda quando, sem nenhum referencial de masculinidade saudável para responder, ele vá buscar na internet o único lugar que lhe oferece pertencimento em vez de acusação. A machosfera não brota do nada. Ela é a cicatriz de um garoto que ouviu, a vida toda, que não havia nada de bom em ser homem.
A própria reportagem sobre a machosfera tropeça nessa verdade sem perceber. Ela lamenta que os meninos "não encontram um espaço para conversar sobre a masculinidade" e por isso "vão buscar na internet o discurso misógino". A frase está correta. O que a Folha não vê é que a matéria ao lado, publicada no mesmo dia, é o manual de como negar a esses meninos qualquer espaço para uma masculinidade que não seja pedido de desculpas.
Isto não é jornalismo dividido entre dois vieses. É uma redação militante executando uma função: fabricar a indignação seletiva que sustenta a guerra cultural, semeando o próprio mal que finge combater. A doença é a mesma nas duas matérias. Só muda o paciente que a redação escolheu culpar. E enquanto uma imprensa que se chama profissional continuar celebrando a demonização do homem numa página e se espantando com o ódio dele na seguinte, o leitor faria bem em lembrar que o que ela vende não é informação. É militância de extrema-esquerda mascarada de jornalismo.
