A posição de Tarcísio é vexatória.

Segundo o próprio, aconselhou Flávio a ficar no Brasil e a recorrer à Justiça Eleitoral. Na mesma entrevista, chamou de "intimidação" a ordem de entrega dos passaportes. Ora, se é intimidação, qual o sentido de ficar e se submeter a ela?

Nas mãos de Moraes, a prisão não depende de culpa ou inocência. Ficasse no Brasil, Flávio corria o risco concreto de acabar como o pai: preso e silenciado. Como faria oposição dessa forma?

Quanto aos questionamentos eleitorais, é certo que qualquer pedido de cassação da chapa de Lula será descartado, porque o establishment controla o Supremo. O mesmo destino terá qualquer questionamento sobre irregularidades e nulidades. É o caso da decisão de estender a votação em todo o país, tomada monocraticamente por Zanin, ex-advogado do Descondenado, contra o parecer do Ministério Público Eleitoral.

Alguém esqueceu? Em 2022, a coligação do PL foi multada em quase R$ 23 milhões por fazer exatamente esse tipo de questionamento. E Carlos Rocha, do Instituto Voto Legal, autor do relatório técnico que o embasou, acabou condenado a sete anos e meio de prisão por "tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito".

Tarcísio governa o estado com a maior economia e a maior população do país. Tem enorme peso político. Deveria usá-lo para encabeçar a campanha pelo impeachment de Moraes e contra a perseguição à direita.

Mas não me surpreende.

Em junho de 2023, poucos meses depois da eleição de 2022, lá estava ele em Lisboa, no convescote de Gilmar Mendes, num fórum que reuniu ministros do Supremo e do governo Lula. Diante da plateia togada, garantiu que o Brasil tinha "um Estado Democrático de Direito vibrante" e que o Supremo, guardião da Constituição, "vem funcionado muito bem nos últimos tempos".

Tarcísio se apresenta como o novo líder da direita. A direita permitida. Está aí para ocupar o lugar que já foi de Serra, de Aécio e de Alckmin, e encenar mais uma vez o Teatro das Tesouras.