A campanha flavista tem uma dificuldade enorme de entender a diferença entre produzir "noticiário positivo" e pautar a imprensa com um ASSUNTO positivo.

O primeiro é praticamente impossível, dado o grau de militância da imprensa. O segundo é ridiculamente fácil e usa a seu favor o antagonismo da própria imprensa, que é odiada pela população.

O roteiro é simples. O candidato expressa o sentimento indignado da população de uma FORMA que a imprensa desaprova. A imprensa mete o pau. O candidato enfrenta a imprensa e alimenta a militância, que toma posição e inunda as redes. A polêmica toma conta do debate público e domina o noticiário com um assunto de interesse do candidato.

Não tem problema nenhum a imprensa falar mal. Só 3 em cada 10 brasileiros têm uma imagem positiva da Globo, e esses já votam cativamente no Lula. A parcela que despreza a imprensa GOSTA de vê-la enfrentada pelo candidato. A imprensa é do sistema e bolsonarismo é anti-sistema.

Isso é o beabá da comunicação política e a receita de TODAS AS CAMPANHAS BEM-SUCEDIDAS da direita nacional-populista no mundo. Jair Bolsonaro fazia por instinto. Trump faz de forma absolutamente intencional, às vezes cometendo de propósito uma imprecisão pontual só para ser corrigido pela mídia e abrir uma polêmica na qual ele tem razão no ponto principal. E a mídia cai como patinhos 100% das vezes há 11 anos.

Mas o Lula também sabe fazer. Vejam o caso de Nossa Senhora Aparecida. Uma fake news cujo noticiário foi ruim para ele: decisão do TSE, a GloboNews teve que se corrigir e pedir desculpas, e ele foi confrontado ao vivo com o fato de que era mentira. Recuou? Nem um milímetro. "Eu não sei se foi fake news". E ainda dobrou a aposta, jogando evangélicos contra católicos. Resultado: pautou o país com uma briga religiosa e tirou parte do foco do noticiário da corrupção. Ocupou espaço. Ele faz isso por cacoete, por reflexo, por prática.

Essa não é a personalidade natural do Flávio, e praticamente ninguém na campanha sequer entende o que estou dizendo. O pessoal acha que comunicação eleitoral é "ter notícia boa pro Flávio e ruim pro Lula". Resultado: toda polêmica é desperdiçada. Notícia falando mal do Flávio causa constrangimento quando deveria causar orgulho. Quando começa uma polêmica, todo mundo corre para pôr panos quentes em vez de jogar gasolina.

Enquanto isso, há uma pauta latente pronta para explodir: o STF se intrometendo no processo eleitoral. É uma escalada de decisões e declarações protagonizada por Flávio Dino, ex-ministro da Justiça do Lula, e por Gilmar Mendes, a figura mais desprezada da Corte. É o sistema agindo para reverter a vontade popular. Um sistema que já está na boca do povo como corrupto, trabalhando para favorecer o Lula e abrindo caminho para rever até o resultado da eleição. Isso é TNT! E a campanha parece completamente paralisada, de novo, com medo do que a imprensa vai falar.

Tudo errado.

Vamos ganhar APESAR da comunicação dessa campanha. Mas está sendo bem mais difícil do que precisava.