Gene Sharp, autor de vários livros sobre como derrubar ditaduras pela revolta pacífica, baseada na desobediência civil, ensina que a chance de um movimento popular derrubar um regime autoritário depende de quanto o povo está disposto a suportar a dor para alcançar seus objetivos.

Pegue o boicote, por exemplo.

Ele sempre tem um custo. Você está acostumado a consumir o produto ou o serviço de uma empresa, e deixar de fazê-lo é um incômodo. Maior ou menor, mas sempre um incômodo.

Agora escale esse ato de revolta para uma greve geral.

Se é ruim para o regime, também é ruim para a população. Quem não trabalha, em geral, não recebe. E a vida de todo mundo é afetada.

A questão é sempre quanto o povo está disposto a sofrer para derrubar um regime. E isso depende de quanto a sua vida já foi castigada por esse mesmo regime.

O regime, por sua vez, aumenta o custo da revolta pela repressão. Quanto mais dor consegue infligir a cada cidadão, individualmente, maior a sua capacidade de dissuadir qualquer levante.

Por isso a base de todo regime autoritário sempre foi a polícia política. A Stasi, na Alemanha Oriental comunista, chegou a ter, pelas estimativas mais amplas, um informante para cada 5 cidadãos, e mantinha fichas sobre cerca de 6 milhões de pessoas, numa época em que tudo isso era feito no papel.

O momento decisivo é a transição. A polícia política ainda está sendo montada, mas a maioria ainda não sentiu na pele o suficiente para aceitar o custo da revolta. Quando sentir, o aparelho estará pronto.

O Brasil está exatamente nessa fase: era um país livre e caminha velozmente para uma ditadura completa. Ainda existe chance de impedir o pior, mas a janela se fecha rapidamente, ainda mais depois do resultado das últimas eleições.