Há centenas de casos de injustiça no Brasil dos últimos anos, mas poucos se comparam ao de Filipe Martins.
Ele passou quase seis meses preso preventivamente por uma viagem que não fez. E que, mesmo se tivesse feito, por si só não constituiria crime.
Na época, ele provou que não saiu do Brasil. A Latam confirmou. Mesmo assim, demorou meses para ser solto.
Agora a Justiça americana confirma o que a defesa dizia desde o início: o registro migratório que serviu para prendê-lo era falso. Um juiz federal da Flórida quer saber quem inseriu aquela entrada no sistema, e a própria alfândega dos Estados Unidos abriu investigação interna. A pergunta que fica é óbvia: quem tinha interesse em fabricar esse registro, e com quem essa pessoa conversava no Brasil?
Qual é a conexão com um blog chapa-branca do regime que deu a falsa notícia?
Depois, Filipe foi condenado sob a tese de que participou da elaboração e apresentação de um documento que a militância de redação apresentou ao público como "minuta do golpe". Perceba: o tal documento, jamais assinado, gira em torno de um instrumento previsto na Constituição, o estado de defesa, que exige o crivo do Congresso.
Filipe era assessor do presidente. Não tinha poder para decidir nada.
Sobre a autoria, há um problema elementar: a própria versão da minuta atribuída a Filipe não está nos autos. A defesa chamou-a de "minuta fantasma" e reiterou esse ponto depois do julgamento. Quem afirma que ele escreveu e entregou o documento a Bolsonaro é apenas o delator.
Sobre a reunião de 7 de dezembro de 2022, em que a minuta teria sido apresentada aos comandantes militares, nenhuma testemunha confirmou em juízo a presença de Filipe. O ex-ministro da Defesa disse que ele não estava lá. O ex-comandante do Exército, principal testemunha da acusação, disse que havia "um assessor que eu não conhecia". O próprio Bolsonaro disse que Filipe "nunca foi para lá para falar de minuta".
Só o delator o coloca na cena. O mesmo delator que confessou, em conversa gravada com um amigo, que foi pressionado a dizer o que os investigadores queriam ouvir.
Por fim, foi mandado para a cadeia com recursos pendentes por uma suposta consulta ao LinkedIn. Os registros da própria Microsoft, dona da rede, mostram que não houve acesso pela conta dele.
Preso por uma viagem que não fez. Condenado por um documento que não escreveu. Encarcerado de novo por uma pesquisa que não fez.
É perseguição política, do tipo que só se vê nas ditaduras mais horrendas.
Enquanto isso, quase todos os corruptos pegos com a mão na botija na Lava Jato tiveram suas condenações anuladas.
É a inversão completa da Justiça.
Solzhenitsyn descreveu precisamente uma das perversões do sistema soviético: criminosos comuns tratados como "socialmente próximos", enquanto dissidentes recebiam o peso máximo da repressão. Ora, não estamos vendo no Brasil uma versão dessa inversão?
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"Filipe Martins foi preso por ter viajado para os Estados Unidos, quando não viajou, por ter feito uma busca no LinkedIn, que não fez, e por ter escrito um documento que não escreveu." https://t.co/IxNJgWFSYk
